
Quando o Mestre Awa Kanzo instruia o seu célebre discipulo Eugen Herrigel na Arte do Arco e Flecha, Kyudô, continuamente lhe repetia que seu tiro não era autêntico, apesar de estar perfeitamente executado. Deixe de pensar no disparo - exclamava o Mestre - assim tem que fracassar. Não posso evitar! - respondia Herriguel - a tensão (da corda do arco) se torna dolorosa. Apenas porque você não está realmente desprendido de si mesmo, por isto sente. E, no entanto, é tão simples! De uma simples folha de bambú pode aprender do que se trata. Sob o peso da neve ela se inclina mais e mais. De repente a carga desliza e cai, sem que a folha haja se movido. Igual que ela, permaneça na maior tensão até que o disparo caia. Assim é, em efeito: quando a tensão se haja cumprido, o tiro tem que cair, desprender-se do arqueiro como a neve da folha, ainda que antes do que ele tenha pensado.
Uma vez apenas, imediatamente depois de um tiro igual a muitos outros, que segundo Herriguel não havia sido excessivamente técnico, o Mestre Awa grito: Aí está! Inclíne-se! Quando inspecionou o alvo, Herriguel comprovou que somente havia roçado a borda. Entretanto, o tiro havia sido autêntico. "Ele" havia executado a ação sem o concurso da vontade. O discípulo perguntou então: E quem é "Ele"? Sensei Awa respondeu: Quando tiver compreendido isto, já não me necessitará. E se eu quizesse colocá-lo na pista, poupando-lhe a própria experiência, sería o pior de todos os mestres.

Deixar de pensar conscientemente, deixar o kata, a forma, o arco, a espada, o golpe, agirem "por conta própria", transformar a espada em uma extenção do corpo: grandes desafios que não se atingem sem grande determinação e paciência.

A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, Eugen Herrigel, publicado no Brasil pela Editora Pensamento.


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