segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Hiroshima no cinema

Por que Hollywood ignora Hiroshima
Nenhum tema foi tão evitado pelo cinema americano desde o fim da II Guerra Mundial como o bombardeio atômico da cidade japonesa de Hiroshima, que completou 65 anos no dia 6.8.10





O cinema americano é onívoro. Ele engoliu praticamente todos os assuntos, dos mais triviais aos grandes eventos históricos, e então os vomitou. De qualquer maneira, há um assunto que Hollywood recusou-se a abordar diretamente: o bombardeio de Hiroshima e suas consequências.
Como se completam agora 65 anos do evento terrível, a omissão parece ainda mais chocante. Trata-se de um elemento de culpa coletiva porque os Estados Unidos são o único país a ter usado uma arma nuclear contra uma população civil? Não pode ser o fato de que o assunto é muito apavorante para retaratar, uma vez que muitos outros acontecimentos horrendos foram representados graficamente em filmes americanos.
As únicas referências que o cinema americano, comercial ou não, fez a Hiroshima foi oblíqua. Durante a Guerra Fria, a Metro-Goldwyn Mayer produziu Aquém e Além (1952), baseado nas experiências do coronel Paul Tibbets, o piloto do Enola Gay, a primeira aeronave a lançar uma bomba atômica. O filme sustenta o argumento frequentemente repetido de que o bombardeio foi justificado por contribuir para o fim da II Guerra Mundial, ainda que pareça mais preocupado com os efeitos que o fato teve no relacionamento do piloto com sua mulher.
Anteriormente, em 1947, a MGM havia lançado The Beginning or the End (O Começo ou o Fim), que dramatizou o Projeto Manhattan. Depois do sucesso dos testes, vemos o Enola Gay e sua tripulação jogar a bomb, a nuvem de poeira e cenas da cidade em chamas – de uma vasta distância, é claro. A sanguínea mensagem do filme é que os Estados Unidos merecem confiança para usar essa nova arma pelo bem universal. Entre os extremamente raros momentos nos filmes americanos que aludem ao bombardeio de Hiroshima está o clímax de O Império do Sol (1987), de Steven Spielberg, onde um belo efeito especial ilumina o céu. Mas em lugar nenhum do cinema americano vemos uma vítima da bomba, um corpo queimado, uma pessoa morrendo por radiação, uma criança deformada.
No diálogo de abertura da obra-prima de Alain Resnais Hiroshima Mon Amour (1959), a referência perante a qual todos os outros filmes sobre o tema devem se inclinar, o personagem principal diz a sua amante que ela viu tudo em Hiroshima – as exibições no museu, as cifras dos feridos e mortos. De qualquer forma, ele insiste, “Você não viu nada em Hiroshima. Nada”.
O cinema americano não viu nada em Hiroshima. Nem mesmo tentou.

POR RONALD BERGAN The Guardian

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